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O mercado de trabalho brasileiro continua criando vagas, mas encontrar profissionais para preenchê-las pode ser um desafio para empresas, especialmente pequenos negócios. Em julho de 2026, o mercado formal registrou saldo positivo de 58.568 empregos, levando o acumulado do ano a 972.203 novos postos.

Foi nesse contexto que uma rede de restaurantes de São Paulo chamou atenção nas redes sociais ao publicar uma espécie de “lista de requisitos” para candidatos. O detalhe é que as exigências apresentadas como diferenciais incluem comportamentos básicos, como chegar no horário, cumprir a jornada, avisar quando faltar e tratar clientes e colegas com respeito.

A publicação viralizou, dividiu opiniões e abriu uma discussão maior: o que empresas podem esperar de um funcionário e o que também deve ser oferecido por quem contrata?

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Restaurante diz procurar pessoas que façam “o básico”

Restaurante
Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

A rede California Food publicou uma mensagem dizendo estar em busca de “pessoas que consigam fazer o básico”. Entre os pontos listados estão chegar no horário, trabalhar durante o expediente, cumprir o horário completo e avisar caso seja necessário faltar.

O texto também cita comportamentos como tratar colegas e clientes “igual gente” e saber ouvir orientações. Em tom provocativo, a empresa chama algumas dessas atitudes de “habilidades raras”.

A publicação ainda ironiza situações comuns em processos de contratação, como o funcionário dizer que determinada atividade “não está no contrato” ou desaparecer durante o expediente sem avisar.

O conteúdo rapidamente ganhou repercussão nas redes sociais. Parte dos usuários se identificou com a reclamação dos empresários, enquanto outros questionaram se a empresa também estaria disposta a divulgar informações básicas sobre a vaga, como salário, jornada, benefícios e responsabilidades.

Quais são as “habilidades raras” citadas pela empresa?

A publicação usa humor para apresentar comportamentos que, em condições normais, seriam esperados de qualquer relação profissional.

Entre os exemplos estão:

  • chegar no horário;
  • cumprir integralmente a jornada;
  • avisar quando não puder comparecer;
  • trabalhar durante o expediente;
  • tratar clientes e colegas com respeito;
  • saber ouvir orientações;
  • reconhecer quando precisa de ajuda;
  • trabalhar em equipe;
  • não desaparecer durante o expediente;
  • pedir demissão caso não queira continuar na empresa;
  • não tentar manter o seguro-desemprego enquanto recebe remuneração de um trabalho.

A empresa também critica a postura de quem se recusa automaticamente a ajudar em uma atividade diferente daquela que imaginava desempenhar.

Esse último ponto, porém, exige uma distinção importante: trabalho em equipe não significa que qualquer empregado possa ser obrigado a executar qualquer atividade, independentemente do cargo, contrato ou das circunstâncias. As atribuições devem estar de acordo com a relação de trabalho e com as regras aplicáveis.

Por que o seguro-desemprego aparece na publicação?

Um dos trechos que mais chamaram atenção faz referência a pessoas que pediriam para não ter a carteira registrada porque ainda estão recebendo seguro-desemprego.

A brincadeira tem fundamento em uma regra real. O Ministério do Trabalho e Emprego informa que o pagamento do benefício é suspenso quando o trabalhador é admitido em novo emprego ou passa a receber remuneração decorrente de vínculo empregatício, inclusive em determinadas situações de trabalho informal.

A própria Lei nº 7.998/1990 estabelece a suspensão do seguro-desemprego em caso de admissão em novo emprego. A legislação também prevê consequências para situações de fraude ou obtenção indevida do benefício.

Portanto, o trabalhador não pode simplesmente combinar com uma empresa para permanecer recebendo o benefício enquanto exerce uma atividade remunerada com o objetivo de esconder a relação de trabalho.

A publicação era uma vaga de emprego?

Apesar do tom de brincadeira, a publicação não foi criada apenas para gerar engajamento.

Segundo Bruno Miziara, proprietário do estabelecimento, a empresa realmente estava procurando profissionais. A intenção foi transformar a dificuldade de contratação em uma provocação nas redes sociais.

Entre as áreas mencionadas estão funções como cozinheiro, administrador e auxiliar de serviços gerais.

O empresário afirmou que a empresa já havia tentado outras formas de recrutamento, inclusive bancos de vagas, mas enfrentava dificuldades para encontrar profissionais que correspondessem ao perfil procurado.

A estratégia acabou funcionando. Segundo ele, a repercussão fez com que currículos começassem a chegar em maior quantidade e, principalmente, de candidatos que já demonstravam identificação com a cultura apresentada pela empresa.

Mercado de trabalho está aquecido, mas isso não significa que toda vaga seja fácil de preencher

Os números oficiais ajudam a explicar por que a discussão ganhou força.

De janeiro a julho de 2026, o Brasil acumulou 972.203 novos empregos formais. O setor de Serviços liderou a criação de vagas, com saldo de 591.519 postos no período. Construção, Indústria e Agropecuária também apresentaram resultados positivos.

Em julho, o salário médio real de admissão foi de R$ 2.419,23, segundo o Novo Caged.

São números que mostram um mercado com grande movimentação de trabalhadores e empresas. Mas a quantidade de vagas disponíveis não significa, necessariamente, que todos os empregadores encontrarão rapidamente candidatos com o perfil que procuram.

Para pequenos e médios negócios, especialmente aqueles que dependem de atendimento presencial e trabalho operacional, fatores como pontualidade, presença, relacionamento com clientes e capacidade de trabalhar em equipe podem ter impacto direto na rotina.

O que os críticos da publicação questionaram?

A reação nas redes sociais não foi unânime.

Enquanto alguns usuários elogiaram a iniciativa e afirmaram que os comportamentos citados realmente são difíceis de encontrar, outros entenderam que a publicação coloca toda a responsabilidade sobre o trabalhador.

Uma das principais críticas foi justamente a ausência, na postagem, de informações como salário, carga horária, benefícios e descrição detalhada das funções.

Também houve quem questionasse a ideia de exigir que o trabalhador faça atividades além daquela para a qual foi contratado.

Essa discussão é especialmente relevante porque existe uma diferença entre colaboração no ambiente de trabalho e uma empresa utilizar uma contratação para concentrar funções que não foram adequadamente apresentadas ao candidato.

E o que o empregador precisa oferecer?

A discussão também funciona no sentido contrário.

Se uma empresa espera pontualidade, comprometimento, respeito e responsabilidade de seus funcionários, o trabalhador também precisa saber exatamente o que está sendo oferecido em troca.

Uma vaga profissional deve deixar claros, conforme aplicável, elementos como:

  • cargo e principais atribuições;
  • remuneração;
  • jornada de trabalho;
  • benefícios;
  • local de trabalho;
  • modalidade de contratação;
  • possibilidade de horas extras;
  • requisitos necessários para exercer a função.

Isso reduz expectativas desencontradas dos dois lados.

O trabalhador sabe o que está aceitando, enquanto a empresa consegue selecionar candidatos que realmente estejam de acordo com a proposta.

CBO define todas as tarefas que o funcionário pode fazer?

Não exatamente.

A Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) é utilizada para identificar e organizar ocupações existentes no mercado de trabalho. Ela ajuda a descrever atividades profissionais, mas a simples existência de uma ocupação na CBO não significa que qualquer tarefa possa ser atribuída indistintamente ao empregado.

Por isso, dizer que determinada atividade aparece relacionada a uma ocupação não encerra, por si só, a discussão sobre as responsabilidades daquele trabalhador.

Na prática, a empresa deve observar o contrato, a legislação trabalhista e as características da função exercida.

A estratégia de marketing deu resultado?

Pelo relato do proprietário, sim.

O que começou como uma provocação acabou funcionando também como ferramenta de recrutamento. A publicação alcançou um público muito maior do que um anúncio tradicional de emprego e fez com que candidatos procurassem espontaneamente a empresa.

Esse tipo de estratégia mostra uma mudança na maneira como pequenos negócios podem tentar atrair profissionais: em vez de simplesmente publicar uma vaga, a empresa transforma sua cultura e suas expectativas em conteúdo.

O risco está em ultrapassar a linha entre uma comunicação descontraída e uma mensagem que possa passar a impressão de que o empregador espera disponibilidade ilimitada ou acúmulo indiscriminado de funções.

O que a polêmica revela sobre contratação?

Restaurante
Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

Mais do que uma discussão sobre “funcionário bom” ou “chefe bom”, o episódio expõe um problema de alinhamento de expectativas.

Para o empregador, características como pontualidade, responsabilidade e respeito podem parecer tão óbvias que nem deveriam precisar ser mencionadas. Para o candidato, porém, uma vaga também precisa apresentar claramente aquilo que a empresa espera e aquilo que oferece.

O resultado de uma contratação tende a ser melhor quando os dois lados entendem as regras antes de começar.

No caso da California Food, a estratégia foi deliberadamente provocativa e conseguiu chamar atenção para as vagas disponíveis. Mas a repercussão também mostrou que falar sobre comportamento profissional inevitavelmente leva a uma segunda pergunta: quais são as responsabilidades de quem contrata?

Conclusão

A publicação da California Food viralizou justamente porque transformou comportamentos básicos do ambiente profissional em uma lista de “habilidades raras”. O tom bem-humorado ajudou a gerar engajamento e, segundo o proprietário, também trouxe currículos para vagas que estavam abertas.

A discussão acontece em um momento de forte movimentação do mercado de trabalho. O Brasil acumulou mais de 972 mil novos empregos formais entre janeiro e julho de 2026, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego.

Para quem está procurando emprego, a principal lição é conhecer as condições da vaga antes de aceitar uma oportunidade e manter uma postura profissional durante a contratação. Para as empresas, a mesma lógica vale no sentido inverso: apresentar com clareza salário, jornada, benefícios e responsabilidades ajuda a atrair candidatos mais alinhados e evita conflitos posteriores.

No fim, o “básico” de uma relação de trabalho precisa funcionar para os dois lados.


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